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13 abril 2010

As Sutilezas do Discurso ou A Retomada da Direita

Tenho observado, não sem inquietação, a movimentação que a direita brasileira tem feito no início desse ano para se rearticular, mas se rearticular não só em torno de alianças políticas, como fica claro no caso da candidatura do vampiro da Moóca - José Serra, onde todos os tradicionais partidos de direita(como os democratas e o psdb) e os nem tão tradicionais - como o pps, pululam de alegria incontida na esperança de retomarem o poder via eleições. Falo de uma rearticulação mais profunda, uma rearticulação do discurso e das idéias que têm norteado o ideário neoliberal no Brasil, profundamente desgastado por conta da última crise e da própria política social do governo Lula.
Esses defensores do Estado mínimo, críticos acerbos da presença do Estado na sociedade e na economia, mais principalmente críticos violentos de qualquer estado de bem estar social, organizaram, já durante esse ano, dois eventos de considerável importância(pelas pessoas que mobiliza e pelo simbolismo do próprio evento), o 1º Fórum Liberdade de Expressão e Democracia, que aconteceu em São Paulo, e o XXIII Fórum da Liberdade, que está acontecendo em Porto Alegre.
Nomes pomposos que escondem os objetivos verdadeiros, as verdadeiras intenções da camarilha que lá se reúne - garantir o poder das elites, reforçar a imagem do capitalismo como modelo econômico necessário, afastar de vez da mente das massas quaisquer pretensões a um Estado socialista ou mesmo a um estado mínimo de bem estar social.
O tal fórum da liberdade ainda está a acontecer, mas já possui algumas pérolas, como a de Stephen Kanitz dizer que o capitalismo não foi o culpado pela crise, e os ataques do sr. Rodrigo Constantino ao socialismo. O engraçado, seria cômico se não fosse trágico, é o uso que tais pessoas fazem de palavras como liberdade e democracia: a liberdade para eles é um pássaro cativo do capitalismo, ao qual se encontra aprisionada, como Prometeu a sua rocha; e democracia é o não tão sutil sistema de governo em que vivemos, a democracia representativa que, todo sabemos, é um jogo de cartas marcadas.
Saber que tais pessoas falam de liberdade sem discutir seu estatuto ontológico, sem se aprofundarem sobre a natureza mesmo da liberdade, nos dá náuseas e não sem motivo. Acontece que a sociedade capitalista que esses senhores defendem e que já dura por aí cerca de cinco, seis séculos, acontece que essa sociedade nunca foi um exemplo de liberdade; ao contrário, ela se constitui sobre a supressão da liberdade, sobre a homogeneização e normatização, sobre a coerção das diferenças. A única liberdade que essa sociedade conhece é a liberdade do capitalista de produzir e comprar o que quer que seja e a liberdade do trabalhador de vender sua mão de obra. Vê-los desfiar o rosário da liberdade quando na realidade anseiam pela retomada do poder federal e com ele o poder de reprimir e dar rédeas soltas aos violentos instintos neoliberais nos preocupa. Porque enquanto a direita articula seu discurso e sua ação em torno de objetivos comuns, a esquerda luta de maneira fragmentária, às vezes divagando mesmo sobre o que fazer.
Por outro lado, é preciso desmascarar essas ações, desmascarar essa liberdade de fachada que os capitalistas defendem com unhas e dentes: eles sonham acordados com os dias em que poderão vender até a própria alma, sem restrições, sem traumas; os dias em que poderão parcelar não um título de terra, mas a própria Terra, sem que isso lhes incomode ou lhes deixe moralmente abalados.
O vampiro da Moóca também fala em liberdade, mas não hesita em mandar espancar professores, em colocar espiões em passeata, como fez a PM paulistana numa das últimas manifestações da greve dos professores paulistas; é essa liberdade que eles conhecem.
Isso me lembra uma música da genial Violeta Parra, que com muita clareza dizia: "miren como nos hablan de libertad/ cuando de ella nos privan en realidad/ miren como pregonan tranquilidad/ cuando nos atormenta la autoridad/ miren como nos hablan del paraiso/ cuando nos llueven balas como granizo/ (...) el que oficia la muerte como um verdugo/ tranquilo esta tomando su desayuno.
Essa música sintetiza bem o que está acontecendo agora nessa retomada da direita: belos discursos, a liberdade em primeiro lugar, mas o que se projeta é escorraçar o povo dos poucos lugares que ele ousa ocupar ou mesmo requisitar; o que se projeta é retomar de novo o poder para que o projeto neoliberal volte com todo seu furor, com sua cega e falsa mansidão, espalhando a miséria e recolhendo os despojos pelos lugares onde passa.
Então, ainda que eu não seja do PT nem fã incondicional do governo Lula, é preciso ficar alerta a essa agitação histérica da direita roxa, porque, não tenham dúvida, uma vez eleito o vampiro da Moóca, as elites jogarão fora seus escrúpulos pré-eleitoreiros e retornarão ao poder quais bandos de abutre que há muito tempo esperam pelo festim.

14 outubro 2007

Asas Que Se Abrem - Poema

Asas Que Se Abrem

Minha voz é rouca, mancha submersa

espelho dos meus olhos

onde passam sombras, desesperos

dos mortos-vivos sobre a terra

loucos da fome, insânia da miséria

deuses vestidos de andrajos

loucos da dor, da indiferença

poetas de um texto a escrever

ah, valha mais a loucura que o fausto da usura

mais as palavras que machucam

as flores do dia

que os crepúsculos mortos dos edifícios

onde se compra a vida, se planeja a morte

milhares de almas acorrentadas pela fome

um dia gritarão no meio dos abismos

ventos marcharão contra as portas das cidades

cegos, loucos, também são deuses

o que tu vês, Tirésias das esquinas

além do que a morte

escancara em nossas retinas

o que tu ouves além

dos gritos dos fetos jogados no lixo

dos loucos que discutem pelas praças

com moscas e mendigos

diz, ó Dionísio

que piratas tu transformarás em pedra

que hera tu trarás para os muros da cidade

que febre cobrirá o pântano dos corações apodrecidos

pelo gelo da ganância

que o sexo dos homens enlouqueça

e as prostitutas ganhem asas

vejo um pão amassado

por prensas de papel-moeda

vejo cédulas onde corre sangue

e sangue cheio de cifrões

ó Moira que paira sobre deuses e abismos

estende tuas asas

sobre os mortos de papel

pesai os ossos

dessa fábrica do medo

minhas letras são tintas de angústia

ouvi o eco dos deuses

as paredes gritavam

quem redimirá os mortos, quem

libertará o gênio da terra, quem

derramará a água do futuro

deuses, sou só um poeta

um bicho cósmico uivando no espaço

não me peçam para redimir o mundo

flutuo sobre pontes, entre palavras

procuro o amor absoluto

tenho os pés feridos, inchados

meu calcanhar é o coração

não me peçam uma canção pelos mortos

não me peçam sementes, estradas, girassóis

tenho ombros onde esferas se derramam

germinando tempos

tenho olhos que enxergam cosmos

no coração de uma menina

ó vozes em tibetano antigo

vozes em dialeto de cristal

os ossos gritam sob a terra

vozes de escravos, vozes de índios

sangue misturado ao milho

carne de Mani

não posso redimir o tempo

não posso deter

a marcha dos elementos

eu que achei o amor

em forma de nereida

eu, que naveguei os mares do inferno e as águas da esperança

sou somente um gesto

asas que se abrem mais que as horas

liberdade que flutua, dente de leão

não me peçam a redenção

sou poeta

meu coração tem todos os gritos

não posso redimir o mundo

estou

só.